Sobre Alice e o fim da Fantasia

Por Flávio Trovão

Fui ao cinema disposto a gostar muito de “Alice no País das Maravilhas”, do diretor Tim Burton. Fui sabendo das possíveis limitações impostas pelos estúdios Disney, como final apoteótico, reafirmação dos modelos tradicionais de família, etc, mas muito disposto a gostar. Os efeitos, em especial, eram o meu atrativo. Desde que o “Cine della spetacolaritá” tornou-se o grande atrativo hollywoodiano, em detrimento de tramas e enredos bem construídos, o que nos resta é nos rendermos aos encantos da ilusão 3D.

Aliás, um rápido comentário sobre o 3D. Esse efeito foi criado nos anos 50 pelos estúdios hollywoodianos dada a difusão da televisão entre os americanos em plena efervescência do american way of life da classe média, o que levou a uma drástica diminuição do público nos cinemas. Um dos primeiros filmes em 3D na época foi “Disque M para Matar” de Alfred Hitchcock, em 1954. Por isso, ao contrário do que vêm sendo dito, não acho o 3D uma revolução, já que a narrativa permanece a mesma e acredito que sua saturação é apenas uma questão de tempo.

Mas, voltando para a obra de Burton, fui disposto a gostar. O Marcus nem conseguiu comprar pipoca, pois não queria perder nada, nem os trailers. E aí quando finalmente começou o filme, as sensações de estranhamento foram se acentuando, a ponto de, ao final, eu conseguir emitir uma idéia sobre o que acabara de ver: o filme é chato!

Pois bem, passo a explicar os motivos que me levam a tal constatação.

Uma rápida sinopse: Alice está com 19 anos e sonha, ainda, com elementos do mundo encantado que visitou quando criança. Não sabe que teria estado realmente no país das maravilhas. Mia Masikowska interpreta a jovem protagonista, que mal sabe, está sendo conduzida para uma festa onde será pedida em casamento por um nobre britânico. Quando percebe a cena armada, Alice tem de escolher entre casar-se com o jovem representante da tradição ou ficar solteira aguardando a chegada de seu príncipe encantado, tendo como modelo uma velha tia que ficou louca. Tradição ou loucura, esse é seu impasse.

Não optando nem por uma coisa nem outra, Alice sai correndo e cai na toca do Coelho. Depois de alguns segundos de efeitos 3D interessantes, a jovem protagonista entra no País das Maravilhas. Mas esse mundo não é mais encantador e sedutor como antes: ao contrário, é sinistro e sombrio, marca registrada da direção de Burton. A partir daí se impõe outra questão: aquela era a verdadeira Alice ou não? Ouvimos vozes de personagens questionando sobre “A verdadeira Alice”. Será aquele o país das Maravilhas que muitos de nós construímos seja com a primeira versão animada da Disney sobre a obra de Lewis Carroll, seja com a leitura do próprio livro? Parece que não. E aí se instala outra grande dúvida: esse filme é sobre Alice no País das Maravilhas? Se nem mesmo as personagens têm certeza disso, quem dirá o espectador!

As personagens estão descrentes de que Alice pode libertá-los do domínio da Maldosa Rainha de Copas, aqui tratada como Rainha Vermelha, interpretada por Helena Boham Carter – melhor interpretação no filme – em oposição à Rainha Branca (Anny Hathaway), evidentemente do bem. Autoritária e insensível, a rainha Vermelha é fascinada por uma decapitação. E tem o poder sobre os seres vivos, inclusive monstros que ameaça a toda população daquele estranho mundo que um dia Alice chamou de País das Maravilhas. Ingenuidade pura da menina, segundo a lagarta Absolem (voz de Alan Rickman).

Dentro da toca tudo é estereotipado! Diferentemente da fantasia onírica onde seres inanimados falam e o impossível ocorre, a tônica dentro da toca são as deformações! A Rainha Vermelha e sua corte lembram muito mais ao filme “Freak” onde personagens com deformidades são protagonistas de um espetáculo de horror. Os cenários lembram filmes de terror e parecem inspirados em cenas de “O Gabinete do Doutor Caligaris”, de 1920.

Ao longo da trama, o que se reafirma é que a loucura é o ponto positivo das pessoas que a assumem. Diante disso, Alice rende-se aos eventos e em uma virada narrativa, já ao final, a jovem menina torna-se uma heroína que deixa Rambo e seus compadres com uma pulga atrás da orelha. Entrega-se a batalha que deve destruir o dragão maldoso da Rainha Vermelha, e em um contexto que lembra muito “O Senhor dos Anéis”, livra aquele lugar do mal Vermelho representado no dragão.

Finda sua missão no mundo até então considerado onírico – Alice afirma o tempo todo estar sonhando – ela volta para a cena do pedido de casamento. Ou seja, vencida a fantasia, o sonho, Alice volta para o real. E ao retornar, fala friamente o que pensa sobre os personagens presentes: sugere a tia solteira que aguarda a vinda do príncipe encantado, para procurar tratar essas “alucinações”. E nega o pedido de casamento.

Alice não vai conciliar a tradição e a inovação. A jovem protagonista tem outros planos: lançar-se no mundo dos mercados, na expansão comercial que seu pai havia sonhado indo além dos seus limites. Por que não até a China? Nesse sentido, pode-se interpretar tal escolha de duas formas: referência à colonização britânica ocorrida na Ásia no século XIX, período histórico onde se ambienta a narrativa de “Alice”, ou ainda, o país que mais cresce economicamente no mundo contemporâneo?

Livre da fantasia, das tradições e das ilusões que um possível sonho possa ter criado para si, a Alice de Burton é a representante de uma classe que acreditou em um sonho para si, mas que diante da realidade de crise que se impôs, encontra no mercado a saída para seus problemas e o sentido para sua vida. A cena final com Alice entrando em um barco comercial em direção a China deixa claro o recado: chega de fantasia, só o mercado pode nos salvar!

O filme poderia se chamar “Alice e o fim da ilusão de um País das Maravilhas”. Assim como os Estados Unidos de 2008 e 2009, o mundo de Alice está muito menos maravilhoso e mais sinistro. É hora de acordar dessa pátria encantada e se lançar novamente no mercado. Não tem como não pensar: a depressão econômica chegou a Wonderland!

3 responses

  1. cinebuteco

    Flávio, não posso reproduzir aqui as mesmas palavras que eu te disse quando tinha acabado de ler o texto. É uma visão muito interessante esta da questão mercantilista porque você traz o tema do filme para as discussões políticas e econômicas atuais com muitas coisas de fato, fazendo sentido… parabéns por linkar coisas tão distintas e tão reais ao mesmo tempo!

    10/05/2010 às 5:38 PM

  2. Pingback: O que há de errado com Alice de Tim Burton? « CINEBUTECO

  3. Luigi

    É isso aê!!!

    11/05/2010 às 2:59 PM

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